Após sete anos do estouro do mensalão, o Supremo Tribunal
Federal (STF) condenou José Dirceu de Oliveira e Silva, o político que
arquitetou o maior esquema de corrupção já organizado na república, para tentar
perpetuar um partido no poder.
Às 19h07 horas desta terça-feira, com o voto do ministro
Marco Aurélio de Mello, seguindo o relator Joaquim Barbosa, a mais alta corte
do país formou maioria para condenar o ex-chefe da Casa Civil do governo Lula
pelo crime de corrupção ativa - também votaram como ele Cármen Lúcia, Rosa Weber,
Luiz Fux e Gilmar Mendes. A tendência é que os demais ministros profiram votos
similares. Somente Ricardo Lewandowski e José Dias Toffoli, que já advogou para
o PT, votaram pela absolvição. "José Dirceu realmente teve uma
participação acentuada nesse escabroso episódio", disse Marco Aurélio ao
sentenciar o destino do petista.
O tempo da pena e o regime em que ela será cumprida ainda
são incertos. Dirceu ainda será julgado por formação de quadrilha no curso da
ação penal. A depender do veredito nessa acusação, ele tanto poderá passar
alguns anos trancafiado quanto cumprir sua pena em regime aberto. Já inelegível
até 2015, Dirceu talvez se veja banido, definitivamente, da vida pública.
Dirceu assumiu o comando do Partido dos Trabalhadores em
1995, depois de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva amargar sua segunda
derrota na disputa pela Presidência da República. Aos poucos, conquistou a
hegemonia no interior do partido. Empurrou os radicais do PT para as margens e
abriu espaço para alianças com outras legendas, independentemente de
alinhamento ideológico. O resultado do arranjo foi a vitoriosa eleição de Lula
para presidente em 2002.
Na época, Dirceu saiu das urnas como o segundo deputado
federal mais votado, com 556.768 votos. Não começou a exercer o mandato
imediatamente porque seu papel na máquina era maior: ele seria o “capitão do
time”, nas palavras do próprio Lula, o timoneiro de um governo em edificação.
Como mostrou a Justiça brasileira, na argamassa desse edifício entravam a
corrupção e o assalto aos cofres públicos.
A derrocada política, após ter sido cassado e apontado
pela Procuradoria-Geral da República como o chefe do mensalão, não freou os
ímpetos de Dirceu. Nas eleições de 2010, quando seu nome era quase proibido na
campanha presidencial, ele discursou para petroleiros em Salvador: “A eleição
da Dilma é mais importante do que a eleição do Lula, porque é a eleição do
projeto político, porque a Dilma nos representa. A Dilma não era uma liderança
que tinha uma grande expressão popular, eleitoral, uma raiz histórica no país,
como o Lula. O Lula é maior do que o PT”. A frase revela como poucas a essência
de Dirceu – um homem que vivia para o PT e, em certo sentido, era o partido.
É por isso que a condenação desta terça-feira equivale à
condenação de um projeto de poder – da tentativa petista de se imiscuir nas
engrenagens do estado por todos os meios – da nomeação de milhares de
funcionários de confiança para cargos na administração à compra de “consenso”
no Congresso, com a corrupção de parlamentares.
Biografia – José Dirceu deixou a Casa Civil, o mais
importante posto da hierarquia ministerial, depois de trinta meses de poder,
alvejado por um tiro certeiro do desafeto Roberto Jefferson (PTB), que na época
era deputado federal como ele. A frase "Sai daí rápido, Zé", virou
jargão popular.
De volta à Câmara dos Deputados, teve o mandato cassado
na madrugada de 1º de dezembro de 2005. Tornou-se inelegível até 2015. Foi uma
noite dura para o PT.
Desde o início do julgamento do mensalão, Dirceu fez
raras aparições públicas. Passou boa parte dos dias entrincheirado em sua casa
no município de Vinhedo, interior de São Paulo, ou na casa da mãe, em Passa
Quatro (MG), município com 15 mil habitantes. Está mais magro e cabeludo, como
nos tempos rebeldes que fez treinamento de guerrilha na ilha do camarada Fidel
Castro.
Às vésperas de sua condenação, o petista ainda fez
questão de se manifestar sobre o resultado das eleições municipais: "A
vitória do nosso candidato a prefeito, Fernando Haddad (PT e partidos aliados)
ao passar para o segundo turno é extraordinária, dentre outras razões
políticas, porque confirma a força do PT na capital e no Estado e a liderança
do ex-presidente Lula".
(VEJA)
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Cleiton Palmeira.